Pão Araribóia: 50 anos de tradição que viraram patrimônio cultural imaterial de Boa Vista
Afeto e memória se unem em um dos sabores emblemáticos da capital, que agora tem sua história oficialmente reconhecida e preservada
Por Jaqueline Pontes
há 1 hora - Última atualização há 8 minutos
Presente na mesa de gerações de boa-vistenses, o tradicional Pão Araribóia hoje é, oficialmente, parte da história e da identidade da capital. Após cinco décadas de tradição, neste ano, o alimento foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial de Boa Vista, valorizando um dos sabores mais afetivos da cidade e preservando um legado construído ao longo de 50 anos.
O reconhecimento celebra não apenas a receita, mas também o saber-fazer, a história e o papel que o pão desempenha na construção da identidade cultural do município. Toda tradição tem um começo. A de Araribóia Castelo, no ofício de padeiro, começou aos 16 anos de idade, conquistando espaço na mesa e na memória de uma Boa Vista da década de 1955.
“Eu era menino quando comecei a trabalhar na padaria. No início, eu abria o forno que assava os pães. Depois, o padeiro foi embora e eu fui fazer pão porque já tinha aprendido. Continuei trabalhando em muitos lugares e não parei mais. Na década de 70, eu consegui comprar esse prédio aqui. Assava pão de madrugada para entregar de manhã cedo nas casas dos clientes”, disse Araribóia.
De geração em geração
Com o passar dos anos, a responsabilidade de manter a tradição da padaria da família foi assumida pelas filhas, que preservam o mesmo cuidado e a qualidade que marcaram a história do Pão Araribóia, criado pelo pai. Ana Rita Menezes, de 57 anos, conta que a função herdada do pai não é fácil, porém o apoio de netos, sobrinhos e dos irmãos faz toda a diferença para manter o andamento do empreendimento.
“Fomos criados com ele e minha mãe trabalhando muito aqui na padaria. A gente acordava de manhã e já tinha cliente na porta de casa. Eu morava em Manaus quando voltei para assumir as responsabilidades da padaria, pois ele já não estava mais dando conta por causa da idade. É uma função desafiadora, mas conto com o apoio da nossa família e o carinho dos clientes. Meu pai é muito querido”, destacou.
Sabor de infância
Muito mais do que um alimento, o Pão Araribóia representa memória, cultura e pertencimento. Ao longo dos anos, conquistou espaço no cotidiano da população, atravessando gerações e se tornando um dos símbolos de Boa Vista. O autônomo Aldecival de Souza, quando criança, era vizinho da padaria. Os anos passaram, a casa ficou mais distante do empreendimento, mas o hábito continua vivo.
“Antes, a minha casa ficava aqui do lado da padaria. Então, todos os dias eu vinha comprar pão caseiro logo cedo. Hoje, moro no bairro Cauamé, um pouco mais longe, e continuo garantindo o meu pão. Por mais que os anos tenham passado, eles continuam com o processo natural, preservando a qualidade de sempre. Para mim, o pão tem gosto de infância”, contou.
Reconhecimento oficial
Após 50 anos de história, o Pão Araribóia recebeu uma homenagem à altura de sua relevância para Boa Vista: o reconhecimento oficial de um patrimônio que pertence à memória e ao coração dos boa-vistenses. Segundo a coordenadora do Patrimônio Cultural de Boa Vista, Carolina Albuquerque, o espaço e a forma de fazer o pão são únicos no município.
“O principal efeito do reconhecimento oficial é a questão do valor cultural do Pão Araribóia, porque ele é bem tradicional aqui na cidade. Isso ajuda a preservar a tradição e o modo de fazer o pão. Dá visibilidade para o produto, para aquele espaço que é muito tradicional. Essa visibilidade é o produto e ele reforça a importância da nossa identidade cultural em Boa Vista”, apontou.