Educação

PATRIMÔNIO CULTURAL - Paçoca de carne preserva tradição e leva identidade roraimense para o mundo

Iguaria ganhou projeção mundial e tem no Boa Vista Junina uma das maiores celebrações da cultura e dos sabores de Roraima

Por Marcus Miranda

há 54 minutos

Carne, farinha, manteiga, cebola e uma história que atravessa gerações. Para quem vive em Roraima, a paçoca de carne vai muito além de uma receita tradicional. Presente nas mesas das famílias, nos estabelecimentos da cidade e nas grandes celebrações populares, a iguaria carrega sabores, memórias e costumes que ajudam a contar a história do povo roraimense.

A Paçoca de Carne foi considerada Patrimônio Cultural Imaterial de Roraima em 2025

E esse valor ganhou reconhecimento oficial. Desde fevereiro de 2025, a paçoca de carne é considerada Patrimônio Cultural Imaterial de Roraima, por meio da Lei Estadual nº 2.108/2025. No mesmo ano, outro reconhecimento colocou Boa Vista definitivamente como referência quando o assunto é a iguaria: a Lei Federal nº 15.195/2025 conferiu ao município o título de Capital Nacional da Paçoca de Carne com Farinha.

Os reconhecimentos reforçam uma relação que vai muito além da gastronomia. Para a superintendente de Turismo da Fundação de Educação, Turismo, Esporte e Cultura (FETEC), Alda Amorim, preservar a paçoca significa manter viva parte da memória do estado.

"Quando reconhecemos a paçoca como patrimônio cultural, estamos dizendo que ela não é apenas comida: é parte da história de Roraima””, ressaltou a superintendente de Turismo da FETEC, Alda Amorim

“A paçoca de carne representa muito da nossa história e da identidade do povo roraimense. É um alimento ligado às nossas raízes, à vida no campo, às famílias e aos encontros em torno da mesa. É uma receita simples, mas carregada de memória afetiva e tradição, transmitida de geração em geração. Quando reconhecemos a paçoca como patrimônio cultural, estamos dizendo que ela não é apenas comida: é parte da história de Roraima”, destacou.

Da mesa roraimense para o mundo

Se por décadas a receita passou de geração em geração, nos últimos anos ela também ganhou projeção nacional e internacional. Um dos principais responsáveis por essa visibilidade é o Boa Vista Junina, evento em que a preparação da Maior Paçoca do Mundo se consolidou como um dos momentos mais aguardados da programação.

A iguaria é servida junto com sua parceira indispensável, a banana

A tradição começou em 2015, quando foram preparados 500 kg. Desde então, a quantidade cresceu ano após ano. Em 2024, a iguaria entrou oficialmente no Guinness World Records, com 1.356 kg, tornando-se a Maior Paçoca de Carne do Mundo.

Todos os anos a Maior Paçoca do Mundo bate recordes, atingindo mais de uma tonelada e meia na edição deste ano do Boa Vista Junina

E a história continuou crescendo. No Boa Vista Junina 2026, um novo recorde foi estabelecido: 1.593,5 kg. A preparação levou mais de 15 dias, mobilizou dezenas de profissionais e fornecedores de diferentes municípios de Roraima e, após a pesagem, a paçoca foi distribuída gratuitamente para cerca de 10 mil pessoas.

Para o prefeito de Boa Vista, Marcelo Zeitoune, a dimensão alcançada pela paçoca mostra como uma tradição pode se transformar também em motivo de orgulho e dar projeção à cidade.

"Hoje, temos orgulho de sermos a Capital Nacional da Paçoca de Carne com Farinha e de ver essa tradição sendo preservada e passada para as próximas gerações”, destacou o prefeito de Boa Vista, Marcelo Zeitoune

“A paçoca faz parte da história de quem nasceu aqui e de quem escolheu Roraima para viver. É um sabor que lembra família, tradição e a nossa própria identidade. Quando Boa Vista leva essa cultura para um evento como o Boa Vista Junina e consegue apresentá-la para o Brasil e para o mundo, estamos valorizando aquilo que é nosso. Hoje, temos orgulho de sermos a Capital Nacional da Paçoca de Carne com Farinha e de ver essa tradição sendo preservada e passada para as próximas gerações”, afirmou.

A Maior Paçoca do Mundo envolve o trabalho de centenas de pessoas, desde sua preparação à distribuição

Turismo que também passa pelo sabor

A projeção alcançada pela iguaria também fortalece outro segmento: o turismo. Para Alda Amorim, experimentar a culinária típica é uma das maneiras pelas quais o visitante estabelece contato direto com a história e os costumes de um destino.

"O turista prova o prato, mas também conhece a história, os ingredientes, os costumes e as pessoas que mantêm essa tradição viva. Isso fortalece nossos restaurantes, empreendedores, produtores e toda a cadeia do turismo", destacou Alda Amorim

“Quando valorizamos a paçoca, transformamos um elemento da nossa identidade em uma experiência para quem visita Boa Vista e Roraima. O turista prova o prato, mas também conhece a história, os ingredientes, os costumes e as pessoas que mantêm essa tradição viva. Isso fortalece nossos restaurantes, empreendedores, produtores e toda a cadeia do turismo. A paçoca acaba se tornando também uma marca do destino”, explicou.

Todos os anos, milhares de famílias fazem questão de pegar uma prova da Maior Paçoca do Mundo

Essa dimensão cultural ganhou ainda mais evidência nesta semana, quando Boa Vista recebeu o encontro “Patrimônio Criativo de Boa Vista: Tempo, Identidade, Inclusão Produtiva e Renda”, promovido pela Prefeitura de Boa Vista em parceria com instituições como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A programação discutiu justamente a preservação e a valorização das referências culturais, além de sua relação com a identidade, a inclusão produtiva e a geração de renda.

Em 2026, o comentarista carnavalesco Milton Cunha prestigiou a pesagem e distribuição da Maior Paçoca do Mundo

Uma tradição para as próximas gerações

O reconhecimento como patrimônio imaterial também carrega uma responsabilidade: garantir que os conhecimentos, as práticas e as memórias associados à paçoca continuem vivos. Para Alda, esse processo passa principalmente pelo envolvimento das novas gerações.

A tradição vai passando de geração para geração

“Quando uma criança ou um jovem conhece a história da paçoca e entende por que ela é importante para Roraima, estamos fortalecendo o sentimento de pertencimento. O patrimônio precisa estar vivo, presente no cotidiano e ser constantemente transmitido, valorizado e celebrado”, ressaltou.