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Leitura desde o Berço: Pesquisadores de Nova York acompanham resultados do programa
Os especialistas estão desenvolvendo uma pesquisa que busca compreender os impactos que a leitura desde a infância causam nas famílias boa-vistenses.
Por SEMUC
07/05/2015
Aos 33 anos, Mirlena Carvalho ainda se emociona ao lembrar do que já vivenciou. Ela não teve uma figura paterna e a mãe a abandonou muito cedo. O pai de seu primeiro filho a abandonou ainda grávida e, no auge da tristeza, envolveu-se em situações que a levaram para a cadeia por 6 meses – lá ela teve seu bebê.
As experiências de Mirlena a levaram à depressão. No final de 2014, porém, seu quadro melhorou nitidamente aos olhos dos seus quatro filhos. “Ela está mais carinhosa, mais próxima da gente. Conversa, escuta e nos orienta. Tem tempo pra gente”, conta a filha de 9 anos, Gabriela.
No referido período, a mãe estava grávida de Maria Luiza e conheceu o programa Família que Acolhe. Passou a ter o apoio e amizade das agentes do Desenvolvimento Infantil e mais tarde, matriculou a outra filha, Eduarda, em uma das Casas Mãe do município. As palestras oferecidas e o projeto Leitura desde o Berço, modificaram a rotina de Mirlena.
“Quando comecei a ler os livrinhos para a Eduarda, eu percebi que todos os meus filhos vinham escutar junto. Então me empenhei em ler todas as noites, porque quero que eles tenham esse carinho que nunca recebi. Isso aproximou mais a gente, porque quando leio me sinto uma criança novamente, e agora me sinto mais confiante para instruí-los a ter um objetivo na vida”, afirmou a mãe.
Aos olhos de dois profissionais – A história de Mirlena foi traduzida, a cada frase, para dois doutores americanos da Escola de Medicina da Universidade de Nova York. Ao compreender as experiências da mãe e observar sua emoção ao falar, o pediatra Alan Mendelson e a PHD em psicologia infantil, Adriana Weisleder, só confirmaram nos estudos que vêm fazendo, a importância da leitura no âmbito familiar.
Os especialistas estão desenvolvendo uma pesquisa que busca compreender os impactos que a leitura desde a infância causam nas famílias boa-vistenses. A convite do Instituto Alfa e Beto (IAB), os doutores visitaram nossa capital pela segunda vez.
“Como o método de ensino municipal (Saber Igual) e as Casas Mãe adotam livros da instituição, a própria empresa recomendou aos doutores que viessem à Boa Vista, porque aqui poderiam desenvolver a pesquisa com mais afinco. Também poderiam acompanhar os beneficiados pelos programas da prefeitura, que adotam esses livros, de perto”, esclareceu Denise Rocha, coordenadora geral de Programas para Educação Infantil do IAB.
Adriana, que tem 10 anos de experiência na área de atuação, afirmou que em Mirlena o aspecto emocional foi fundamental para que a relação familiar mudasse. “Como ela é muito aberta e sensível, o empenho que teve ao ler para seus filhos veio acompanhado de um desejo muito forte de demonstrar afeto e também de se curar da depressão. E a leitura tem sido fundamental porque ajuda a voltar para seus momentos mais difíceis, na infância, e compartilhá-los indiretamente com os filhos”, enfatizou.
A psicóloga também contou que o estudo feito pela dupla tem obtido resultados positivos para as famílias boa-vistenses. “Os pais desta cidade se mostram realmente engajados em aprender tudo que podem para melhorar a vida dos filhos. Trabalham duro para isso e também se mostram muito afetuosos com suas crianças”, observou Adriana.
A dupla ministrou uma palestra sobre a leitura entre pais e filhos no Família que Acolhe, com a ajuda de Denise. Durante o evento, foram abordadas questões como a atenção da criança durante a leitura, com a exibição de vídeos e a possibilidade dos pais reverem aspectos comportamentais dos filhos enquanto liam para os mesmos. Alan, que é pediatra há 25 anos, apontou outro aspecto em comum para todos os pais que vem acompanhando.
“Não sei se é por conta da áurea dessa cidade, que é cheia de entusiasmo, alegria e paz, mas percebo que todos esses pais transmitem calmaria para os filhos na hora da leitura, o que parece tornar o pequeno mais quieto e comportado. Realmente, conhecer de perto o cotidiano dessas famílias é a melhor forma de seguir com nosso estudo, porque também podemos dar instruções para que os relacionamentos melhorem”, comentou Alan.
A manicure Suelen Ferreira, de 20 anos, confirmou as palavras do pediatra. Desde que levou o filho Luan, de 3 anos, para uma Casa Mãe e passou a ler para ele, percebeu mudanças no comportamento do filho.
“Ele passou a ter uma memória que me surpreende, e também assimila muito melhor o que vivência. Ficou mais calmo e eu, que sou bem rígida, também. Hoje em dia nossa relação tem muito mais carinho do que antes”, explicou a mãe. E, enquanto ela falava, seu filho não parava de observar seu livro.
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