Educação

MATATALAB - Projeto usa robótica para fortalecer língua indígena e valorizar cultura originária na comunidade Darora

Iniciativa desenvolvida na Escola Municipal Vovó Tereza da Silva une inovação e saberes tradicionais

Por Marcus Miranda

há 3 horas - Última atualização há 3 horas

Às vésperas do Dia dos Povos Indígenas, celebrado neste domingo, 19, a Rede Municipal de Ensino de Boa Vista reforça, na prática, o compromisso com a valorização das tradições. Na comunidade indígena Darora, a Escola Municipal Vovó Tereza da Silva desenvolve um projeto que une tecnologia e cultura no processo de aprendizagem, com uso do kit de robótica Matatalab.

Com mapas personalizados, o projeto tem como principal objetivo fortalecer a língua Macuxi, por meio de missões pré-estabelecidas 

Voltado para alunos do 1º e 2º ano do Ensino Fundamental, o projeto “Codificando na Alfabetização: Fortalecendo os Saberes Indígenas” utiliza o kit de robótica para estimular o pensamento lógico, ao mesmo tempo em que fortalece a língua materna Macuxi.

Tecnologia a serviço da cultura

Com uma abordagem lúdica, o projeto adapta as atividades do Matatalab à realidade da comunidade. Os tradicionais comandos de programação foram transformados em palavras e expressões do cotidiano indígena, permitindo que os alunos aprendam brincando.

“Adaptamos o material para fortalecer o vocabulário das crianças na língua materna", disse o professor Miller, responsável pelo projeto

Responsável pela iniciativa, o professor Miller Tavares de Almeida explica que a ideia surgiu da necessidade de ir além do uso convencional do recurso tecnológico. “Adaptamos o material para fortalecer o vocabulário das crianças na língua materna. Eles trabalham a leitura, associam imagens e palavras e formam frases dentro da realidade deles. Isso contribui significativamente para o desenvolvimento da alfabetização e para a valorização dos saberes indígenas”, destacou.

Aprendizado que faz sentido

Por meio dos mapas, os alunos aprendem nomes de animais, frutas, partes do corpo, entre outros

Com mapas produzidos pelo professor, os alunos aprendem, em Macuxi, nomes de animais, partes do corpo, elementos da natureza e objetos do dia a dia, como arco e flecha, tipiti, farinha e beiju.

As palavras em Macuxi são associadas às imagens

Além disso, expressões comuns da rotina escolar também fazem parte das atividades, como pedir para beber água, ir ao banheiro e responder à chamada — tudo na língua materna. "Eles usam palavras que fazem parte da rotina, tanto na escola quanto em casa. Isso fortalece a prática e faz com que levem esse conhecimento para além da sala de aula”, explicou o professor.

Os robôs e a as torres de comando receberam um cocar, símbolo da cultura indígena

Outro detalhe que chama atenção é a personalização do material: os robôs e a torre de comando receberam cocares coloridos, simbolizando a identidade cultural dos povos indígenas.

Preservar hoje para o futuro

Miller destacou que o projeto vai além da tecnologia e tem como principal objetivo manter viva a identidade cultural das crianças. “Trabalhar a língua materna desde cedo é fundamental para que eles não percam essa conexão com a própria cultura. A gente incentiva que eles pratiquem também em casa, com a família, para que esse conhecimento não fique restrito à escola. É uma forma de preservar as raízes e garantir que essa geração leve esses saberes adiante”, afirmou.

“A língua materna é uma conquista importante", destacou o gestor, Cleidson Marques

O gestor da unidade, Cleidson Marques, reforçou o papel relevante do projeto, especialmente diante das transformações sociais. “Hoje, nossas crianças têm muito contato com a tecnologia e com o mundo externo, o que pode enfraquecer a cultura. Esse projeto vem justamente para equilibrar isso, mostrando que a tecnologia também pode ser uma aliada na preservação das nossas raízes”, afirmou.

Os robôs são programados com setas, números e outros símbolos que os fazem cantar e dançar, por exemplo

Ele destaca ainda que a iniciativa se soma a outras ações da escola, como o ensino da língua materna, componente presente na grade curricular. “A língua materna é uma conquista importante. A escola e a comunidade trabalham juntas para fortalecer essa identidade, e projetos como esse ajudam a manter viva essa cultura nas novas gerações”, completou.

Protagonismo e entusiasmo dos alunos

"É bem legal", disse Rainelly Carneiro

O resultado aparece no envolvimento dos estudantes, que participam ativamente das atividades e demonstram entusiasmo com a proposta. “Eu gosto muito do Matatalab. É bem legal”, disse a aluna Rainelly Carneiro, de 6 anos.

"Já aprendi várias palavras", contou Andrew Miller

O colega de turma, Andrew Willer, de 6 anos, também afirmou gostar muito do projeto. “Acho divertido. Já aprendi várias palavras”, contou.

Educação escolar indígena com qualidade e identidade

Assim como nas unidades urbanas, as escolas indígenas da rede municipal contam com o mesmo padrão de qualidade, incluindo recursos tecnológicos, além de especificidades que respeitam a realidade local, como transporte escolar, café da manhã e cardápio adaptado à alimentação tradicional.

Nessas unidades, os alunos também aprendem Macuxi e/ou Wapichana por meio do componente de Língua Materna, fortalecendo o vínculo com a cultura e a identidade dos povos originários.

Matatalab: tecnologia que ensina brincando

O Matatalab é um kit educacional de robótica voltado para o ensino do pensamento computacional de forma lúdica e sem uso de telas. Por meio de blocos de comando, as crianças criam sequências e resolvem desafios, desenvolvendo habilidades como raciocínio lógico, criatividade e resolução de problemas.

Na Rede Municipal de Ensino de Boa Vista, o recurso é utilizado como ferramenta pedagógica integrada ao currículo, ampliando as possibilidades de aprendizagem e mostrando que tecnologia e educação podem caminhar juntas — inclusive na preservação da cultura.