Entre cadernos, sonhos e afeto, mãe volta a estudar aos 74 anos com apoio da filha
Aluna da Educação de Jovens e Adultos (EJA), história de dona Diomar emociona e inspira ao mostrar que nunca é tarde para aprender e recomeçar
Por Marcus Miranda
há 1 hora - Última atualização há 24 minutos
Aos 74 anos, dona Diomar da Silva Rodrigues descobriu que nunca é tarde para realizar um sonho. Aluna da Educação de Jovens e Adultos (EJA) na Escola Municipal Francisco de Souza Bríglia, ela decidiu voltar à sala de aula motivada pela filha, Kátia Regina Rodrigues, professora. Hoje, coleciona novas conquistas, entre elas, a capacidade de escrever o próprio nome.
Natural do interior do Maranhão, Diomar chegou a Roraima aos 21 anos em busca de oportunidades. Viúva, criou os filhos trabalhando como vendedora. Sempre comunicativa e determinada, ela brinca ao falar sobre sua personalidade forte. “Sempre fui muito arretada. Passei 48 anos vendendo. Tudo que você colocar na minha mão eu vendo”, contou, aos risos.
Entre o trabalho, a criação dos filhos e os desafios da vida, os estudos ficaram para depois. Mas o desejo nunca deixou de existir. “Já consigo escrever o meu próprio nome, e isso é muito especial para mim. Hoje em dia, mais do que nunca, o estudo é muito importante. Você não consegue nada sem estudo”, afirmou.
O incentivo que veio de casa
A filha, Kátia Regina, atua como apoio pedagógico na escola durante o período noturno. Ao começar a trabalhar na unidade, ela viu na EJA uma oportunidade de ajudar a mãe a conquistar um antigo sonho. “Quando eu passei para o turno da noite, convidei minha mãe para vir comigo. Ela aceitou de imediato, mesmo tendo uma rotina cheia de atividades durante o dia”, contou.
Kátia relembra que a mãe sempre demonstrou insatisfação por não ser alfabetizada. “Ela já tinha me confessado que uma das únicas tristezas da vida dela era não saber ler. Então, fazer parte desse processo é muito emocionante. Para mim, ela é pura inspiração, uma mulher cheia de coragem e determinação”, destacou.
A emoção ficou ainda maior quando mãe e filha dividiram a sala de aula. Kátia chegou a lecionar para Diomar na EJA. “Foi um enorme prazer ver minha filha formada. Ser aluna dela foi muito emocionante. Dentro da sala, eu fazia questão de chamá-la de professora”, relembrou dona Diomar.
Para Kátia, ensinar a própria mãe foi uma experiência difícil de descrever. “Dar aula para a EJA já é algo especial, mas ensinar alguém que me ensinou tudo na vida é uma felicidade ainda maior. Não tenho palavras para expressar a alegria de participar da conquista da minha mãe”, disse.
Aprender transforma e motiva
A trajetória de dona Diomar também emociona quem acompanha de perto sua evolução na escola. Professora da EJA, Eliezina Freitas explica que muitos alunos chegam inseguros, acreditando que não serão capazes de aprender.
“Muitos adultos e idosos chegam com medo, achando que não vão conseguir ler ou escrever. Quando começam a perceber que são capazes, o brilho nos olhos muda completamente. Isso também motiva a gente como professora”, afirmou.
Segundo ela, pequenos avanços fazem grande diferença na autoestima dos estudantes. “Quando eles conseguem ler uma placa, reconhecer palavras no supermercado ou escrever o próprio nome, passam a se sentir mais confiantes e motivados a continuar aprendendo”, explicou.
Energia para viver e aprender
Além da EJA, dona Diomar mantém uma rotina intensa de atividades. Ela participa do projeto Cabelos de Prata, faz aulas de dança, como carimbó, além de oficinas de pintura e confecção de bonecos. No fim do ano passado, conquistou a primeira faixa na capoeira.
Com filhos, netos, bisnetos e até tataraneto, ela garante que ainda tem muitos sonhos pela frente — e aprender continua sendo um deles. “Enquanto eu tiver vida, quero continuar aprendendo. A gente nunca sabe tudo”, disse.
Matrículas da EJA seguem abertas durante todo o ano
A Prefeitura de Boa Vista, por meio da Secretaria Municipal de Educação e Cultura (SMEC), reforça que as matrículas para a Educação de Jovens e Adultos (EJA) seguem abertas durante todo o ano. A modalidade é destinada a pessoas com 15 anos ou mais que não concluíram o Ensino Fundamental na idade regular e desejam retomar os estudos.
Atualmente, a EJA é ofertada em escolas das zonas urbana, rural e indígena da capital, garantindo oportunidade de acesso à educação em diferentes regiões do município. As matrículas devem ser feitas diretamente nas unidades escolares que ofertam a modalidade, nos seguintes horários de atendimento:
- 8h às 12h
- 14h às 18h
- 18h às 22h30
Entre os documentos necessários estão histórico escolar, RG ou certidão de nascimento, CPF, comprovante de residência, cartão do SUS, cartão de vacina atualizado e duas fotos 3x4.
Entre as escolas que ofertam a modalidade estão:
Escola Municipal Francisco de Souza Bríglia – Pricumã
Escola Municipal Francisco Cássio de Moraes – União
Escola Municipal Glemíria Gonzaga Andrade – Cidade Satélite
Escola Municipal Newton Tavares – Calungá
Escola Municipal Raimundo Eloy Gomes – Senador Hélio Campos
Escola Municipal José Davi Feitosa – Murupu
Escola Municipal Indígena Martins Pereira – Comunidade do Morcego
Os interessados devem procurar a unidade mais próxima para obter informações sobre vagas e matrícula.